sexta-feira, 12 de setembro de 2014

CAPÍTULO UM




O SENTIMENTO


Certos sentimentos são difíceis de explicar. Eles simplesmente vêm e invadem as pessoas, sem pedir permissão, sem dizer o porque de sua intransigência, e se apoderam do ambiente adentrado usando-o de forma parasitológica. Digo isso, devido ao desgaste energético que sofre o indivíduo que é acometido por tal fenômeno. 

Eu tenho sido vítima de um sentimento negrúmino, que apesar de em alguns se torna positivo e saboreável, comigo não se dá a mesma coisa pelo simples fato de eu estar impedido de me deleitar neste que para alguns é belo e aprazível mas para mim não. Sei porém, que caso eu queira entregar-me ao que identifico como mazela, querendo de alguma forma deliciar-me com seus sabores terei que me prender as sua consequências.  E eu tenho medo das consequências, pois normalmente elas nunca valem a pena.

O CORVO


Meu nome é Rhamil Leómas. Meus amigos me chamam de Leo. Sou casado e tenho dois lindos filhos, o Alic Rhashid e a Aisha Thamys. Somos descendentes de libaneses, por isso esses nomes tão estranhos. Moramos em Warwick nos Estados Unidos da América. Tenho uma bela família e sou bem sucedido profissionalmente. A empresa na qual sou executivo já exerce atividades em mais de 230 países, mas não foi fácil ser parte dessa organização tão grande. Foi uma questão familiar. O meu pai já trabalhava nesta empresa como operário, e sempre falava coisas como: - Meu filho um dia vai estar entre os grandões da diretoria. Eu fui crescendo com isso na mente e realmente me sentia como sendo parte daquela grande organização, mesmo sendo criança ainda, porque todos os dias eu ia deixar o almoço do meu pai e ele me dizia: - Leo hoje você me traz o almoço, isso é só o começo, amanhã você estará no meu lugar trabalhando e não só isso, você  vai fazer muito mais do que eu já fiz - dizia meu pai. Eu gostava muitos daquelas conversas.

 Era nessas idas para levar o almoço do meu pai que eu via Caroline. A mãe dela também trabalhava lá como faxineira e como não tinha ninguém pra cuidar de Caroline quando ela ia trabalhar, ela levava-a para o trabalho. As pessoas da empresa não se importavam com isso, porque Caroline era menina muito quieta e branda, não atrapalhava no serviço de sua mãe.

Era engraçado ver Caroline brincando com lápis e papel fazendo desenhos e vestida apenas com sua roupa íntima de baixo. Ela era apenas uma criança não tinha porque se importar com o que estava vestindo. Sempre que eu ia cumprimentá-las ela corria e se agarrava as pernas de sua mãe de um jeito muito sapeca.

Nessa época eu tinha apenas 17 anos de idade e estava me preparando para ir estudar na Europa. Meu pai há muito tempo vinha juntando dinheiro para que eu pudesse estudar fora do país eu valorizava o suor de meu pai. Todos os dias eu dedicava horas de estudo pra poder fazer jus ao esforço que meu pai estava fazendo por mim. Nós éramos em três irmãos, sendo eu o mais velho. 

Eu tinha muita responsabilidade em casa. Cuidava de meus irmãos pequenos pois nossa mãe já não estava mais conosco, ela havia falecido logo após o nascimento de meu irmão mais novo. Teve complicações na cirurgia para retirada do bebê e uma semana depois morreu. Desde então foi muito difícil pra nossa família sem nossa mãe, mas graças a Deus com muita batalha nós conseguimos sobreviver sem ter que nos separar enquanto éramos pequenos. Meu pai se esforçou muito para nos criar, e fazer com que fossemos pessoas decentes. Algumas vezes eu o encontrava chorando de saudade de nossa mãe. Ele nunca se casou novamente. Dedicou toda sua vida a nós e por isso eu o admiro tanto.


Aos 22 anos fui para Cambridge estudar, assim como o meu pai desejava. Foi uma época de muitas aventuras. Os quatro anos mais maravilhosos que já vivi. Conheci muitas pessoas legais que ficaram marcadas na minha vida, inclusive foi lá que eu conheci a minha atual esposa. Ela é um pouco mais velha do que eu, por isso meu pai não gostou muito de saber que eu estava me relacionando com ela. Eu não entendia o porque de meu pai não gostar de nosso relacionamento, achava até que ele estava errado por não me apoiar, já que ele me apoiava em tudo. Mas eu fui contra a orientação de meu pai e só hoje descobri que ele estava certo, pois apesar de hoje eu estar com uma vida estável no que diz respeito ao meu casamento eu passei por muitas dificuldades, e foi nesse momento de dificuldade que reencontrei Caroline.

A GARÇA


Caroline estava diferente. O jeito como ela se vestia, arrumava os cabelos, maquiava o rosto, se movimentava... tudo me arrebatava de um jeito tão poderoso que eu não conseguia parar de olhá-la.
Seu corpo magro, alto e bem feito, seus longos e cacheados cabelos e sua pele clara e macia como um puro algodão me encantavam a cada lapso de segundo. E apesar de conhecê-la desde criança, pra mim ela não era mais aquela menininha que eu costumava ver por entre as pernas de sua mãe, mas sim uma mulher, e quão bela mulher. Então eu percebi que aquele sentimento começava a me invadir, e por mais que eu fugisse dele, mais de mim ele se apoderava, por que na verdade eu o queria em mim.

Lembro-me que, quando criança, não fazia parte dos hábitos de Caroline a extrovertência. Ela costumava falar pouco e mal cumprimentava as pessoas, para o tal era necessário muitos apelos de sua mãe. O seu sorrir era curto e de lábios serrados com poucos movimentos em sua boca, o que me perecia apenas um esboço de riso tal qual a davinciana Monalisa. A poucos ela dava o prazer de sua simpatia, pois era menina muito tímida. Hoje seu sorrir deixou de mesquinho. Agora ela mostra bem os belos dentes que tem, o que para mim é hipnotizante. Contudo, continua sendo moça de poucas palavras, porém bem colocadas. Seus dizeres são articulados, calculados e pronunciados pausadamente para que alcancem o objetivo da intenção do que está sendo verbalizado por ela. No entanto o que mais fala por ela são belos olhos, que se movimentam com cautela e discretamente focalizam o alvo. E foi esse ato que me fisgou, pois ao me fitar, Caroline mandou-me uma mensagem de suas intenções para comigo. Percebi tais intenções e tive um desejo insuportável de corresponder, e correspondi. Sei que não devia ter feito isso, mas eu já me via envolto naquela sensação explosiva que tomava conta de mim e que hora me aprazia, hora deprimia, por que eu sabia que não poderia tê-la. Mas nós continuávamos naquele jogo gostoso de flertes que se intensificava a cada novo encontro.

Nós nos encontramos todo dia, pois ela também se tornara funcionária da mesma organização que nossos pais trabalhavam. Engraçado isso. A nossa história parece se entrelaçar de uma maneira muito estranha. Sempre nos encontros entre nós ela mantinha os mesmos hábitos,  me olhando e me olhando e me olhando.  Certa vez nós fomos a praia entre amigos e em um dado momento ela me disse: - Sei que você gosta de desafios.  Eu entendi o que ela quis dizer. Sim,  era um grande desafio o nosso envolvimento porém pareceu-me que ela estava disposta a encarar aquele desafio mas eu continuava com o medo das consequências.